Brasil deverá aproximar relações com EUA em 2017

Por Edison Corrêa

Publicado em 29 de Dezembro de 2016

Donald Trump, ao tornar-se vencedor das recentes eleições norte-americanas, trouxe um novo cenário internacional para as relações Brasil-Estados Unidos. Apesar das incertezas quanto ao horizonte político-econômico brasileiro, a tendência, de acordo a mestranda em Relações Internacionais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), Daniela Araújo, é a retomada de uma política conservadora, aproximando os dois países.

Daniela Araújo – Mestranda em Relações Internacionais da universidade Estadual do Rio de Janeiro – UERJ. Foto: Paulo Araujo

Segundo a especialista, o Ministério das Relações Exteriores brasileiro, capitaneado por José Serra, não possui uma liderança técnica capaz de definir uma agenda compatível com as conquistas recentes neste setor. “O Brasil conseguiu ampliar sua voz internacionalmente através de uma proposta autônoma pela diversificação alcançada na Era Lula. Sou adepta da visão de acadêmicos como o filósofo Mangabeira Unger, que acreditam ser um momento de oportunidade para o país, já que Trump demonstra estar voltado para a política interna de sua nação e a América Latina não é discutida, a não ser no que concerne às migrações”, explica Daniela.

 México e Cuba são considerados “problemáticos” 

Na visão norte-americana, países como México e Cuba são considerados “problemáticos”. O primeiro exatamente pela nuance das migrações ilegais e o segundo, apesar da abertura de relações viabilizada no governo Barack Obama, pela incerteza na retomada das tensões devido ao conservadorismo de Trump. “É possível, portanto, acreditar que o lugar mais óbvio para os EUA buscar expor uma faceta mais positiva de sua política seria o Brasil. Isso não é uma certeza, pois a América Latina é relegada a um segundo plano na perspectiva deste novo governo ianque, mas é possível que haja oportunidade neste cenário”, avalia a especialista.

Já com relação a países belicistas, como a Rússia, a previsão é de ruptura com o que Barack Obama propôs em seu mandato governamental. “Em assuntos militares, apesar de não ter sido de forma tão contundente, Obama buscou quebrar a imagem beligerante dos EUA deixada pela doutrina Bush”, crê Daniela.

 Direitos Humanos podem gerar conflitos 

A escolha de Trump, como conselheiro e estrategista de gabinete, de Steve Bannon, conhecido por defender abertamente ideais racistas e machistas, pode trazer tensões em seu governo com países que respeitam direitos humanos e ideais igualitários, como a França. De acordo com Daniela, a designação de Bannon ao cargo representa a prevalência do extremismo na estrutura do poder. “Ideais de igualdade e de direitos humanos estão sendo colocados em risco, uma vez que o poder está nas mãos de pessoas que os desvalorizam. Enxergar, na atualidade, cidadãos capazes de defender a categórica subjugação do outro pelo bem próprio ou de um grupo específico é algo tão inacreditável, após décadas de lutas por Direitos Humanos, que parece não ser verdade. Daí o fato de haver insegurança, medo e incertezas”, afirma a especialista. Outro fato que preocupa a geopolítica mundial é o fato de que Trump, antes de assumir, demonstrou deslizes frequentes em suas falas, afirmando pensamentos incapazes de sustentar. “O atual presidente retrocedeu opiniões e modificou promessas de campanha após eleito. O que podemos esperar de alguém assim com o poder nas mãos?”, indaga Daniela.

 O Muro de Trump” 

Daniela chama a atenção para o que chamou de “o muro de Trump”. O presidente norte-americano prometeu, em campanha, erguer uma barreira de concreto para os imigrantes. “Pode não ser real ainda, mas já foi erguido em termos ideológicos”, imagina a especialista. Segundo ela, a situação para os imigrantes, caso Hillary Clinton tivesse sido eleita, seria menos conturbada, porque previa-se que ela daria continuidade ao governo Obama, que demonstrou empenho em solucionar questões na temática migratória. Entretanto, a vitória republicana deixou o panorama ás avessas. “Trump deixou claras as suas intenções para com os imigrantes ilegais e com registro criminal. Levando em consideração seu discurso xenófobo e suas tendências, é possível pressupor que o presidente irá agir não somente com aqueles que já adentraram as fronteiras dos EUA, mas também tornar as condições mais rígidas para os estrangeiros que aspiram a viver o sonho americano, isto é, o ‘american way of life’”, enfatiza.

 Reação da massa trabalhadora branca” 

Segundo a especialista, o governo Trump não será “uma derrota para o Ocidente”, como apregoou Carl Bildt, ex-ministro das Relações Exteriores da Suécia, mas há uma preocupação com diversos temas, majoritariamente os Direitos Humanos, liberdade e igualdade. “Não acredito em uma nova ordem mundial. As pessoas confundem essa onda de extremismo se espalhando pelo mundo”, diz Daniela Araújo. Em sua visão, a eleição de Trump nos EUA é equivalente ao cenário brasileiro atual. “É o retrato de uma reação da massa trabalhadora branca norte-americana ao desamparo que o projeto político vigente os submeteu. Assim, a urgência por mudança demandada por essa maioria foi um dos fatores que conduziu o republicano a se aventurar na política com propostas tão revolucionárias – ainda que eu as enxergue negativas”, comenta Araújo. Mesmo não sendo a resposta mais justa para as grandes questões de políticas interna e externa dos EUA, segundo a especialista, a eleição norte-americana veio preencher um vácuo. “Foi a vitória de grupos que se sentiam abandonados”, conclui.