Seleção feminina deixa de ser ‘clube do Bolinha’

Do Solidário, por Kleber Vieira

Publicado em 03 de Dezembro de 2016

A escolhida para dar fim ao ‘clube do bolinha’ foi a paulistana Emily Lima, de 36 anos, apresentada no último dia 3 de novembro, na sede da CBF. Ela vai a campo já em dezembro, na disputa do Torneio Internacional de Manaus. Participam Brasil, Rússia, Itália e Costa Rica.

Embora tenha sido anunciado como fato inédito, até mesmo no noticiário do chamado horário nobre da televisão, a chegada de Emily Lima não despertou grande interesse da mídia. Na primeira coletiva de imprensa da treinadora, pouco mais de 40 jornalistas estiveram presentes.

O oposto do que ocorre quando Tite, técnico da Seleção Brasileira masculina ocupa, diante de centenas de jornalistas se acotovelando, as mesmas sala e mesa em que Emily respondeu às perguntas dos poucos representantes da imprensa. Normalmente, à mesa, o técnico de Neymar & Cia fica ladeado por dirigentes loucos por aparecerem nas fotos e imagens de TV. Emily, ao contrário, ficou sozinha.

 

A chegada

Na manhã do dia 3 de novembro, a sorridente e simpática Emily Lima chegou à sede da CBF para a sua primeira entrevista coletiva como treinadora da Seleção Brasileira feminina de futebol, marcada para as 11h – começou quase ao meio-dia. Trajava calças compridas e blazer pretos ‘risca de giz’ sobre uma camisa branca; calçava sapatos pretos de salto baixo, usava maquilagem e batom discretos, tinha os cabelos castanhos e longos penteados, mas sem qualquer efeito especial.

Elegantemente vestida, Emily estava bem diferente do habitual uniforme de treino, com calção largo ou agasalhos que usa à beira dos gramados, onde comanda suas equipes.

Quanto aos sonhos que tem, um deles já foi realizado, o de ser treinadora da Seleção. O outro é, justamente, o de ver a categoria mais valorizada, da forma como todos decantaram devido às boas atuações da seleção feminina na Olimpíada Rio 2016, mas cuja empolgação acabou após a eliminação e a perda da sonhada medalha de ouro.

Meu principal sonho era estar aqui. Acho que o primeiro sonho está sendo realizado. O segundo não é pessoal. É ver a modalidade ser reconhecida e valorizada no nosso país. Para mim, o meu maior sonho é ver a modalidade onde ela merece estar. Acho que a cultura do nosso país é machista, mas a gente está quebrando essa barreira. Vou valorizar muito o que o presidente está fazendo, de ter muita coragem de colocar uma mulher à frente da Seleção principal”, declarou a treinadora.

E dentro desse sonho, Emily cita como ponto fundamental a capacitação das mulheres para o cargo de treinadora, a fim de assumirem o comando de equipes e seleções femininas.

Sei que a maioria das mulheres ex-atletas que conheço não pensa se capacitarem para serem treinadoras, mas isso também é importante para o desenvolvimento da categoria”, frisou ela.

 

Estilo de jogo

Sobre o estilo de jogo que pretende implantar na Seleção, Emily disse que gosta do chamado ‘jogo apoiado’, como no futebol europeu.

Claro que tenho que pensar muito bem o modelo de jogo que vou utilizar, porque no clube, tenho algumas peças que eu precisava adaptar. Aqui eu posso convocar as melhores atletas da atualidade. Minha ideia é trabalhar nas duas linhas de quatro, para manter um padrão definido. Estudo muito o futebol da Europa, o mais vistoso hoje”.

Para Emily Lima, o ideal é montar uma equipe jovem, mas com algumas jogadoras experientes. Por isso, espera contar, ainda, com as veteranas Marta, Cristiane e, porque não, Formiga, esta já à beira de completar 42 anos.

Perfil

Formada treinadora com a Licença B da CBF Academy, a ex-jogadora de futebol, Emily Lima começou a jogar futebol ainda criança, com apoio da mãe Oneida, do pai Antônio e do irmão Weber, este radialista. O primeiro clube foi o Saad (SP), onde chegou aos 13 anos de idade, tendo passagens por outras equipes paulistas como São Paulo, São Bernardo, além do Barra, de Teresópolis (RJ), e do Veranópolis (RS). Vestiu a camisa da primeira Seleções Brasileira feminina Sub-17. De 2003 a 2008, atuou na Espanha, depois foi para a Itália, jogou como volante na seleção de Portugal de 2001 a 2009, mas após várias lesões no joelho, encerrou a carreira precocemente aos 29 anos.

Em sua preparação para dirigir um time, Emily foi supervisora e auxiliar-técnica da Portuguesa em 2010. No ano seguinte, comandou a equipe feminina do Juventus e em 2012, foi treinadora em uma parceria entre o clube e o São Caetano. No início de 2013, começava a fazer história, ao ser a primeira mulher convidada pela CBF para comandar a Seleção Brasileira feminina de base (Sub-17, na preparação para disputar o Campeonato Sul-Americano). Desligou-se em 2014 para assumir o time feminino do São José dos Campos, pelo qual conquistou os Jogos Abertos e os Regionais de São Paulo de 2015 e 2016, o Campeonato Paulista de 2015 e chegou ao vice-campeonato da Copa do Brasil agora, em 2016.