Suicídio: Uma responsabilidade da sociedade e das instituições

Publicado em 31 de Janeiro de 2017

 

O soldado da Polícia Militar/RJ, Douglas de Jesus Vieira, de 28 anos, que atirou contra a própria cabeça, ao vivo, pelo Facebook, anunciou diversas vezes que estava angustiado e que iria se matar. Estava em processo de separação e com salários atrasados, segundo as primeiras informações dos jornais do Rio de Janeiro sobre o caso.

Os amigos do policial acharam, de acordo com depoimentos já apurados, que era uma ‘brincadeira’ de Douglas de Jesus. Esse caso, esse tratamento relativizado, minimizado e desconsiderado, não é isolado. Acontece todos os dias pelo país afora.

Quando uma pessoa que passa por estado emocional fragilizado e depressivo, grita por socorro nas redes sociais ou em suas redes pessoais, deve ter a sua vida seriamente considerada em risco, por seus familiares, amigos e colegas de trabalho.

Pelos rincões do país, quando um suicida (há grande índice de adolescentes e de jovens) puxa o gatilho contra a sua própria cabeça, ou pendura uma corda numa árvore, muita gente puxa o gatilho com ele e chuta o banquinho sob o corpo do enforcado, da mesma forma.

Porque os transtornos depressivos – num Planeta com 350 milhões de depressivos – não são levados a sério. O preconceito, os ‘tons de brincadeiras’, as piadas debochadas, assinam as sentenças de auto extermínio dessas pessoas que atentam contra a própria vida. É uma questão de políticas públicas, de saúde pública, uma responsabilidade da sociedade e das instituições.

Entre os policiais, a tragédia do soldado Douglas de Jesus faz parte de uma estatística preocupante. Segundo estudo das pesquisadoras Dayse Miranda e Tatiana Guimarães, intitulado O Suicídio Policial & as Políticas de Prevenção no Brasil, apresentado em 2012, em Gramado (RS), policiais  são  apontados  como  um  grupo  de  risco  em potencial de  morte  por  suicídio.

O estresse da profissão, o constante risco de morte, a perda de companheiros assassinados em combate, são apontados como algumas das causas do suicídio de policiais no país.

Durante o 9º Encontro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, realizado no Rio de Janeiro, em julho de 2015, a professora Dayse Miranda, em conjunto com o Laboratório de Análise da Violência da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), apresentou dados alarmantes sobre o suicídio de policiais militares do Rio de Janeiro.

Na pesquisa, intitulada Suicídio e Risco Ocupacional na PM do Rio de Janeiro, foram entrevistados 224 PMs. Entre os policiais voluntários ouvidos, 22 (10%) afirmaram já terem tentado se matar. O estudo gerou a criação do Grupo de Estudos e Pesquisas em Suicídio e Prevenção (GPESP), num trabalho em conjunto com a Polícia Militar do estado do Rio de Janeiro (PMERJ).

A forma de se publicar notícias sobre suicídio também é uma questão de revisão editorial da imprensa. Começa pela decisão de publicar ou não um suicídio. E sobre a forma (o método) escolhido pelo suicida ao atentar contra a própria vida.

O que pautou a imprensa no caso do soldado da PMERJ Douglas de Jesus, não foi a morte do homem atrás da farda. Foi o fato de o suicídio ter sido cometido ao vivo, transmitido pelo Facebook. Espetacularização ocorre quando não há o contexto. Mesmo que seja nas matérias factuais. Ainda mais em casos de suicídios. O tratamento da tragédia precisa ser revisto pelos companheiros de profissão frente à uma doença que é considerada o ‘mal do século’.

(***Ricardo França é jornalista, atualmente em tratamento de depressão crônica. Nos últimos dois anos passou por cinco clínicas terapêuticas. É servidor da Secretaria de estado de Segurança. Recentemente lançou a página https://www.facebook.com/pilulasdedesassossego/)