Talento e senso crítico

Foto: Pauty Araújo

Baiano de Tucano, Othon Bastos começou sua carreira fazendo teatro infantil. Veio para o Rio de Janeiro por intermédio de Paschoal Carlos Magno para integrar o Teatro Dusee fez Teleteatro na extinta TV Tupi. Sua primeira experiência cinematográfica foi no filme Sol sobre a lama, de Alex Vianni. Atuou  também no premiado O Pagador de promessas, de Anselmo Duarte. Seu talento ganhou visibilidade para o Brasil e o mundo ao interpretar o cangaceiro Corisco, em Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha, filme ícone do Cinema Novo.

Aos 84 anos e 64 de profissão, Othon Bastos continua antenado com tudo que o cerca e garante que está sempre aprendendo. A entrevista para o Portal Solidário foi realizada em um dos seus locais favoritos: a Livraria Argumento, no Leblon, Zona Sul do Rio.

PORTAL SOLIDÁRIO – Como você vê a situação do Brasil hoje?

OTHON BASTOS – Para mim não importa a posteridade, e sim o que você está vivendo, a situação política e econômica.  A vida é para ser vivida. Eu já passei por várias fases da história deste País desde a Segunda Guerra, a queda do Getúlio, até os dias de hoje. Venho acompanhando toda a história. Como eu poderia imaginar que o País chegaria ao ponto que chegou, a tanto descalabro, tanto roubo, e a cultura relegada, a saúde relegada, a educação relegada? Só se fala em 15 bilhões, 120 bi. Onde tem tanto dinheiro aqui nesse País? Se pegarem todos os ladrões e todos os roubos o Maracanã vai ficar pequeno para colocarmos tudo. Estou com 84 anos e tão decepcionado… não quero nem mais ouvir nada sobre isso. E as pessoas estão na rua gritando, apoiando um ou outro. Não temos que apoiar ninguém hoje em dia. Se neste País o voto não fosse obrigatório, ninguém apareceria. Todo mundo está descrente. A situação está calamitosa. Por isso, temos que lutar para que melhore. Temos que mudar muita coisa. São pouquíssimas opções!! Você olha para um lado, olha para o outro e fica apavorado! E eles dizem que ninguém roubou, que ninguém fez nada. Só se fala em roubos de bilhões. Se recuperassem todo o dinheiro o País seria uma maravilha! Teríamos hospitais e escolas fantásticos. A arte estaria no seu apogeu!

 

‘Para mim não importa a posteridade, e sim o que você está vivendo, a situação política e econômica’.

 

Você sente falta de fazer teatro hoje?

Hoje, para fazer teatro só se trabalha sextas, sábados e domingos. Antigamente tínhamos sessões todos os dias, com exceção de segundas-feiras, porque se tinha público para isso.

Não se encontra hoje tal.

E a Lei Rouanet ?

Está tão confusa hoje a Lei Rouanet… Para você conseguir colocar um espetáculo na Lei Rouanet você tem que contratar pessoas especializadas nela que vão cobrar porcentagens

em cima do patrocínio. Antigamente, o produtor teatral fazia um empréstimo no banco e saldava-o em dois meses só com o dinheiro da bilheteria, porque tinha público. Hoje, você

vai ao teatro e vê a casa mais ou menos cheia, mas 70% ali pagou meio ingresso ou é gratuidade. Além disso, os ingressos estão caríssimos! Se faz teatro hoje porque se ama teatro. Não se consegue viver do teatro, a não ser que você esteja no elenco de algum grande musical, daqueles que ficam anos em cartaz. Hoje o ator tem que fazer cinema e televisão para sobreviver.

Mas você é a favor ou contra a Lei Rouanet?

Não sou nem contra nem a favor. Nunca consegui fazer nada que tivesse na Lei Rouanet.

Porque para conseguir que um projeto consiga ser agraciado por ela, tem que fazer um trabalho de anos. Fui convidado para dez dez peças desde 2013 e até agora nenhuma foi agraciada pela lei. Quando quero alguma coisa coloco a pastinha debaixo do braço e corro atrás, mas os possíveis patrocinadores usam todo tipo de desculpa. Antes era o golpe; e hoje é a crise. Mas a educação está em crise há 30 anos, e a saúde há 50.

Está havendo um boom do cinema atual. O que acha disso?

Ultimamente o cinema tem voltado com uma força extraordinária. Na época do Collor houve a idade média no Brasil que acabou com tudo. Depois tudo foi se reerguendo e se refazendo aos poucos.

Você foi considerado pelo Glauber Rocha o melhor ator do Cinema Novo.

Quando a linguagem do Cinema Novo surgiu foi revolucionária. Eles faziam uma linguagem em cima do Brasil. De o que era o Brasil e de como era o Brasil. Aquilo tinha que ser feito mesmo e as pessoas eram as melhores daquela época. Era o Glauber, o Leon, o Cacá, o Joaquim Pedro. Eram pessoas que tinham uma visão de mundo. Eles faleceram e não apareceu um substituto, porque eles não tiveram nem tempo para prepará-los. Tem aí uma geração enorme de pessoas, jovens maravilhosos fazendo coisas maravilhosas.  Até quando isso vai existir eu não sei porque é muito difícil de se prever o futuro desse País. Há sempre o medo de se cair num buraco e isso é angustiante. Tenho a esperança de que o cinema vá para frente indiscutivelmente.

‘Quando a linguagem do Cinema Novo surgiu foi revolucionária.

Eles faziam uma linguagem em cima do Brasil. De o que era o Brasil e de como era o Brasil’.

As emissoras estão investindo mais em novelas. Você acha que a televisão hoje pode ser considerada um celeiro de novos atores e cineastas?

Não acho que hoje há mais investimento em novelas do que já houv

Othon Bastos

e. Antigamente tínhamos a Excelsior, a Tupi, a Bandeirantes, a Record… Tínhamos seis ou sete emissoras que faziam ótimas produções e depois elas foram parando. Hoje temos a Globo, a Record, o Silvio Santos, de vez em quando, a Band. O grande investimento em novelas hoje é da Globo, indiscutivelmente. As pessoas podem falar o que quiserem. É uma emissora que emprega a pessoa e tem novelas das 17 às 23 horas. Já trabalhei em várias emissoras. Eu e vários atores vamos nos sustentando, mas é muito difícil . Antigamente havia as companhias de teatro e você se sustentava com o teatro. Tive com a minha companheira, Marcia Overback, uma companhia de teatro durante 15 anos em São Paulo e me sustentei somente com teatro. Mas depois  veio a decepção que é hoje. Você tem que pedir esmola para poder trabalhar. Você se reúne com possíveis patrocinadores e eles querem modificar a obra.

O empresariado não entende a arte?

O empresariado não entende a arte e muitas vezes te recebem com distância. Você aqui e ele no outro lado da mesa. Ele te olha com distanciamento e desdém. É muito desgastante, mas você não pode parar. Acho que se deve lutar até o fim, tem que se impor para que as idéias sejam levadas até o fim. Era assim antigamente. O artista apresentava uma obra e o empresário acreditava naquilo. Hoje está bem diferente.

O que você acha dos jovens atores serem escalados pela beleza e pelo culto ao corpo?

Isso sempre aconteceu e vai ocorrer sempre. Hoje tenho muito mais dificuldade de trabalhar  porque tenho um certa idade. Os próprios autores hoje escrevem mais para a juventude. Nós brincamos dizendo que a avó de hoje tem 50 anos. Daqui a 20 anos os galãs de hoje perderão terreno também. Você vê grandes atores que têm passado e uma história fora da televisão. Numa novela você tem mais facilidade de escalar jovens porque há em abundância e  vários com grande talento. Porque você é o que você faz. Não adianta o ator ser uma promessa porque no ano seguinte à estréia dele na televisão, já deixa de ser uma promessa e já é ele mesmo. Você só é uma promessa quando aparece, mas depois não mais. Depois tem que mostrar o talento.

Você escolhe os trabalhos como?

Eu sempre escolhi o que queria fazer. Nunca pensei em sucesso, nunca fui vaidoso. O Oscar Wilde tem uma frase ótima para isso: “O vaidoso só ilude a ele mesmo”. O público hoje sabe definir aquele que é bom e aquele que não é. Você quando sobe no palco ou atua na frente das câmeras tem que ter amor e vontade.

Como você faz para manter a vivacidade?

Você não tem que ter vivacidade, você tem que saber como conduzir a sua vida. O segredo é o trabalho. Vejo esses jovens e também aprendo com eles. Porque você tem que ter conhecimento das coisas, do novo. Não sou só eu. Eu não faço monólogo, não faço nada sozinho. O outro também é importante. Quando trabalho com alguém, respeito a pessoa, sem impor a ela a minha vontade. Já basta o que os diretores impõem e acham que está certo. A vida é estar sempre com outra pessoa. A vida é realmente isso, estar antenado com o que está à frente e tirar o que há de melhor. Adoro ver o trabalho dos colegas e, no fim das peças, ir lá no camarim e cumprimentá-los.

‘Você não tem que ter vivacidade, você tem que saber como conduzir a sua vida. O segredo é o trabalho’.

Foto: Pauty Araújo
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Carla Giffoni: Jornalista, escritora e roteirista. Atuando há 20 anos como jornalista nas Editorias dePolítica, Polícia, Economia, Cultura e Cidades, em revistas, jornais, sites e emissora de TV, entre eles: Tribuna da Imprensa, Revista Menorah, repórter do Portal de Notícias SolidáRio, TV Bandeirantes (BM), jornal A voz da Cidade, Rádio do Comércio. Colaboradora do roteirista José Carvalho no filme “Vidas partidas”; colaboradora do roteirista Doc Comparato para o projeto “Peritos da Verdade”. Pós-graduada em Jornalismo Cultural e em Roteiro para Cinema e TV (UVA); graduada em Comunicação Social – habilitação em Jornalismo – e também em Letras/Formação de Escritor (PUC-RJ).
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