Rio não se rende à pratica de se fazer jogos só com torcida do mandante

Por Solidário, de Kleber Vieira

Publicado em 15 de Março de 2017

O Fla-Flu decisivo da Taça Guanabara, no último dia 5 no Estádio Nilton Santos, Engenhão, derrubou a tentativa de se estabelecer o que estava sendo considerada, pelo Ministério Público, como a solução contra a violência no futebol, embora, para a maioria dos desportistas representasse a morte do futebol’: a participação de apenas uma torcida em jogos. Esta prática já se verificou em outros estados e também no Novo Basquete Brasil, NBB, em que somente a torcida do clube mandante se fez presente nos ginásios – Flamengo, Vasco e Botafogo disputam a competição.​

Além de um jogo de futebol eletrizante, que terminou com a vitória do Fluminense sobre o Flamengo, nos pênaltis, após empate em 3 a 3, as duas torcidas deram um show de colorido e empolgação dentro e fora do estádio. Apenas uma pequena briga, sem consequências sérias, entre duas pessoas foi registrada pela Polícia Militar.​

Durante uma semana, a incerteza sobre a participação das duas torcidas na final da Taça Guanabara fez a partida também ter seu local confirmado apenas na noite de quinta- feira. Recurso impetrado por Flamengo e Fluminense, com apoio do Vasco e da Federação de futebol do estado do Rio de Janeiro (Ferj) foi aceito pela Justiça, que liberou, contra a vontade do Botafogo, o Engenhão para a última partida do primeiro turno do Cariocão. Segundo o regulamento assinado por todos os clubes no Arbitral em 2016, o estádio era a alternativa caso o Maracanã não pudesse ser utilizado.​

Assim como os torcedores, os cronistas esportivos comemoraram a decisão, que restabelece a ordem. Apesar da vitória contra o estabelecimento da torcida única, eles acreditam que é preciso engajamento da sociedade, dos dirigentes, além de ter vontade política para combater a violência, em conjunto com a adoção de outras medidas mais rígidas.

Rosária Farage (produtora de rádio e TV)​

“Acho que a imprensa pode colaborar sim, mas com muita informação, buscando sempre mostrar as coisas boas, o brilho do espetáculo, a emoção como ocorreu no Fla-Flu. As notícias giraram em torno do ‘clássico da paz’, fotos, imagens de pessoas de Flamengo e fluminense se abraçando se confraternizando, e dos próprios dirigentes dos clubes. Mas se você vê, dentro de um espetáculo tão grande, uma pequena confusão, e transforma aquilo em destaque, esquecendo todo o resto, acaba não colaborando com o objetivo que é ter a paz nos estádios”

Marcos Eduardo Neves (jornalista e escritor)

Polêmica sobre Torcida única .

“Acho torcida única uma palhaçada. A cultura do brasileiro, em especial do carioca, que é um povo super receptivo, é a cultura da amizade, da festa. Eu estou hoje ciceroneando um amigo turco, que quer ver festa, quer ver duas torcidas duelando, no bom sentido da palavra. As autoridades não têm competência para sanar a questão da violência. Naquele momento, do jogo Flamengo e Botafogo, no Engenhão, que na minha opinião não deveria ter sido realizado, não havia segurança, pois policiais faziam movimento pedindo melhoria nos salários. Daí, acontece confronto fora do estádio, e aí vêm dizer que jogo com torcida única vai resolver alguma coisa. Como se ninguém marcasse seus pontos de encontro para se batarem, se digladiarem. Não é por aí. Quem vai ao Maracanã, por exemplo, sabe que há 60 mil pessoas, mas que um grupinho de 15 ou 20 que vão se bater. Então, é um problema de segurança e de logística de segurança. Se for ver, 99 por cento dos jogos não têm violência, mas é nesse um por cento que a gente carimba o atestado de incompetência de quem não consegue sanar isso. A violência está enraizada,não só no Brasil, mas no mundo. Eu estou com um livro sendo muito vendido na Turquia, mas não posso viajar porque as pessoas se explodem por lá, entram na boate saem metralhando pessoas, aqui pode acontecer uma briga no trânsito e alguém sacar uma arma e atirar. No âmbito do futebol, são sempre os mesmos. Há pessoas com histórico de violência, mas andam soltos. alguns dias, o presidente da torcida Mancha Verde foi assassinado em São Paulo. Aqueles corintianos que atiraram um rojão e mataram um menino na Bolívia, foram presos lá, soltaram os caras e eles, de volta ao Brasil já se meteram em novas confusões. Ou seja, são sempre os mesmos. Então falta vontade de resolver. Os dirigentes podiam colaborar nesses sentido, pois as caras são conhecidas. Mas se só pensarem em aumentar a arrecadação e ter mais sócio-torcedor, não se resolve isso”.

Marlos Bittencourt (jornalista e escritor)​

“Se tiver de institucionalizar torcida única, então a gente vai precisar de 12 dias Carnaval, um dia para a torcida decada escola de samba, senão elas vão se engalfinhar também. Se a premissa for essa, qual a diferença das torcidas do futebol, do Carnaval, do rock… eu acho que precisa mais empenho das autoridades e mais conscientização, pois não adianta botar torcida única, pois ela não vai brigar dentro do estádio, mas pode marcar confronto com outra longe do estádio, com morte, paulada e tiroteio, inclusive. Além do trabalho de conscientização, por meio da imprensa, que vai veicular isso, é preciso punição rigorosa.Não pode é o cara estar com pau cheio de pregos, garrafa, corrente, aí o policial toma isso do cara e libera. Não pode! Tem de levar cana dura mesmo, o cara tem de responder criminalmente. O cara sai de casa, ou da sede da torcida dele, com pau cheio de prego, gargalo de garrafa, corrente, outra arma etc, boa coisa ele não vai fazer, isso é fato. Além da imprensa, que tem papel fundamental em divulgar campanhas de conscientização, também com a participação das autoridades, é preciso que essas mesmas autoridades estabeleçam punições severas para os atos violentos. Não é só prender na hora do jogo, afastar do estádio para comparecer á delegacia. Não! Tem de prender mesmo e processar criminalmente, pois o cara que sai munido dessas coisas, não está indo brincar de casinha.