UERJ E HUPE agonizam sem recursos

Manifestação de alunos, professores, funcionários e membros da comunidade contra o sucateamento da UERJ e do Hospital Universitário Pedro Ernesto (HUPE). Foto: Fábio Gonçalves

Por Edison Corrêa

Publicado em 14 de Janeiro de 2017

O Hospital Universitário Pedro Ernesto (HUPE) é um dos maiores e melhores hospitais do Estado do Rio de Janeiro, com mais de 500 leitos, 10.000 internações/ano e mais de 180.000 consultas ambulatoriais especializadas/ano, sendo responsável por mais de 200.000 consultas/ano e cerca de 8.000 cirurgias ambulatoriais/ano. Já a Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) possui cerca de 35 mil alunos em seus cursos de graduação, mais de quatro mil em cursos de mestrado e doutorado, cerca de dois mil em cursos de especialização e 1,1 mil nos ensinos fundamental e médio (Instituto de Aplicação – CAp-Uerj) divididos em Campus Maracanã, treze unidades externas e seis campi regionais espalhados pelo Rio. 

Atendimento precário por falta de verba

Os dois equipamentos públicos estaduais de excelência têm algo em comum na atualidade: estão num estado de penúria, sangrando, com servidores sem receber salários há meses. Uma manifestação recente, organizada pelo Centro Acadêmico da Faculdade de Medicina da UERJ (CASAF), reuniu centenas de pessoas na Avenida 28 de Setembro, em Vila Isabel. O ato público, acompanhado pela Polícia Militar até as dependências da faculdade, onde terminou, contou com participação de servidores, ex-funcionários, aposentados, estudantes e ex-alunos das instituições. “A UERJ não recebe verba desde agosto do ano passado. Mesmo assim, foram apenas 11% dos R$ 85 milhões devidos pelo Governo do Estado ao mês. Os servidores da universidade estão sem receber salários desde dezembro, os aposentados idem, pararam de repassar as bolsas estudantis e os funcionários terceirizados de infraestrutura ficaram mais de seis meses sem proventos. Já no HUPE, apenas 92 leitos dos mais de 500 estão funcionando. As internações e cirurgias estão paralisadas. É uma situação vexatória e inadmissível”, afirmou a coordenadora do CASAF, Elisabeth Amanda. “Para completar, o bandejão da faculdade fechou diversas vezes nos últimos dias, deixando os alunos na mão”, completou o estudante Guilherme Lardosa, também do CASAF.

Doentes crônicos podem morrer à espera de atendimento

No ato em favor das unidades estaduais, Maria Fernanda Silva, de sete anos, segurava um cartaz com os dizeres “O que eu quero? Meu direito à vida garantido”. Ela referia-se ao tormento por que passa sua mãe e sua tia, Célia Maria Silva e Maria Fernanda Silva, que possuem doenças renais crônicas e penam para obter atendimento na Policlínica Piquet Carneiro, conveniada com a UERJ, que viabiliza variadas especialidades médicas. “Os profissionais estão trabalhando por amor, mas a situação é crítica. Se eu não conseguir atendimento especializado, posso ter uma crise reumática e ficar na cadeira de rodas, sem poder caminhar”, explicou Maria. Segundo Célia, o atendimento no HUPE sempre foi de excelência. “Tenho 44 anos de idade e sou atendida aqui desde que tinha 11 anos. A gravidez de Maria Fernanda foi de alto risco. Fiz pré-natal e parto na maternidade do hospital. Sempre foi excelente!”, contou Célia. 

Aluno revela: “cinco anos na UERJ e nunca vi situação igual!”

Com o cadeira que cursa estampada em sua camisa, o estudante Philippe Souto, aluno do sétimo período de Direito da UERJ, lamentava-se. De acordo com ele, a situação chegou ao fundo do poço. “Desde que entrei na faculdade, nunca vi uma situação igual a essa! Sou cotista e recebo uma bolsa de R$ 400, que está atrasada. Sempre residi em Vila Kennedy, com meus pais, mas vim morar de aluguel em Vila Isabel para ficar perto da faculdade. Se minha família não ajudasse financeiramente, não sei o que iria fazer. Têm professores da UERJ e amigos meus no caos. Também tenho direito ao material didático, mas o repasse de R$ 180.000/mês não chega desde 2015. Como comprar livros tão caros?”, indaga. A servidora Luciana Mattos, que trabalha na biblioteca da UERJ, concordou com as palavras do rapaz. “Estamos sem receber desde dezembro do ano passado. Nem o décimo-terceiro entrou. Estou pegando dinheiro emprestado de familiares para pagar IPTU, IPVA e material escolar dos filhos. Sem contar que os projetos no meu setor estão completamente parados!”, reclamou a funcionária. 

Sindicalistas apoiam protesto

Alexandre Pessoa, professor-pesquisador da Fiocruz, apoiava o protesto dos servidores e estudantes. Membro da Associação dos Serventuários da entidade (ASFOC), ele lembrou que muitos profissionais que lá trabalham são egressos da UERJ/HUPE. “O governo não pode, de maneira alguma, deixar de apoiar a saúde, a educação e a pesquisa. Em minha opinião é uma situação política, de estado mínimo. Precisamos resistir a isso”, conclamou o sindicalista. Para o presidente do Conselho Regional de Medicina do Estado do Rio de Janeiro (CREMERJ), Pablo Vazquez, a crise financeira do Rio foi causada pelas isenções fiscais às empresas viabilizadas pelo Governo do Estado. “Esta crise fluminense não pode ser paga com o sangue do povo! Há um evidente sucateamento das instituições estaduais e as instituições precisam participar da luta contra esta situação criminosa. É o que o CREMERJ está fazendo”, garantiu.

Aposentado passa mal durante ato

Durante a manifestação, o aposentado Luis Carlos Souza, 72 anos, sentiu-se mal devido ao calor excessivo. Atendido na famosa calçada musical do Boulevard 28 de Setembro, o morador do Flamengo balbuciou que não aguentava mais sofrer por não receber seus proventos financeiros em dia. “É direito meu!”, repetia. Atendido pelos Bombeiros, foi levado ao Hospital do Andaraí para diagnóstico. Segundo a médica residente Fabiana Conrado, o senhor teve uma baixa de pressão devido à tensão e ao momento pelo qual passa em sua vida. “É triste verificar que a população está deixando de ter direitos que lhe são assegurados por lei, como salário”. Ao sair de maca para a ambulância, o idoso ainda observou o cartaz que a estudante Renata Barbosa segurava: “apenas 92 leitos”. Seria cômico, se não fosse trágico.

Arrestos para HUPE e Federalização da UERJ

Deputados estaduais de oposição ao Governo Luiz Fernando Pezão prometeram restituir a Frente Parlamentar de Apoio à UERJ, criada em 2007 na ALERJ. Apesar disso, o presidente da Casa Legislativa, Jorge Piccianni, sugeriu ao governador que levasse à Brasília uma proposta de federalização da UERJ. “É mais lógico, em seu desenvolvimento de pesquisas e seu corpo docente, que a universidade esteja vinculada à União, não ao Estado, que não tem condições de bancar sua infraestrutura. Na última audiência pública na UERJ, vimos que o custo por aluno é cinco vezes mais caro que o de uma universidade no Canadá, por exemplo”, disse Picciani. O reitor da UERJ, Ruy Garcia Marques, não quis comentar o assunto com a reportagem do Portal Solidário. Sobre o Pedro Ernesto, a Justiça determinou que sejam feitos arrestos diários – solicitados pela Defensoria Pública Estadual – nas contas do governo do estado, até que se atinja a soma de R$ 7,5 milhões para o pagamento de custeio do HUPE. 

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Manifestação contra o fechamento da UERJ - Foto Fábio Gonçalves
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Petição pública é lançada contra sucateamento da UERJ

Por Carla Giffoni

Mônica Leite Lessa, professora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), ressaltou a importância do ato público promovido por  professores, alunos, funcionários e aposentados. “O objetivo da manifestação foi mostrar a verdadeira situação do nosso estabelecimento de ensino”, afirmou. Para ela, é inadmissível o que está acontecendo com a universidade, que vem sofrendo um processo de sucateamento de longa data. 

A docente, que é professora associada do Departamento de Relações Internacionais da universidade, juntamente com Maria Emília Prado, professora titular do Departamento de História, elaborou uma carta que transformou-se em petição pública, destinada ao presidente da República, Michel Temer, e também ao atual governador do Rio, Luiz Fernando Pezão, denunciando a situação dramática da UERJ. Elas pedem que governos federal e estadual assumam a responsabilidade pelo pleno funcionamento do estabelecimento de ensino, que tem 64 anos de fundação.

Estamos lutando para manter as portas abertas. Orientadores estão trabalhando com os seus orientandos, pessoas continuam participando de congressos, apresentando teses etc. Afinal, a Uerj é a 5ª melhor universidade do Brasil e a 11ª da América Latina, de acordo com o ranking Best Global Universities 2016, apurado com base em indicadores que mensuram a performance nas áreas de pesquisa acadêmica, número de docentes premiados e reputação regional e global. Estamos vivendo uma crise profunda e sem precedentes, agravada desde o final de 2015, quando o governo do Estado do Rio passou a submeter a universidade a um progressivo abandono, um verdadeiro processo de sucateamento”, constatou.

A professora lembrou que, desde 2015 a situação tem se agravado. Segundo ela, a crise institucional teve início com os salários atrasados por quinze dias. Depois, a segunda parcela do décimo terceiro foi dividida em vários meses, além da grande defasagem salarial entre professores e funcionários da UERJ e outras universidades públicas. O acumulado da defasagem já tem 14 anos. “Queremos que o poder público assuma a responsabilidade pelo destino de 2.977 docentes, 4.519 funcionários técnico-administrativos especializados e 32.220 estudantes”, solicitou.

A petição pública pode ser assinada até o dia 31 de janeiro. O documento pode ser encontrado na página http://www.peticaopublica.com.br/pview.aspx?pi=BR96951. Segundo Mônica, após o último dia de janeiro, será estudada a maneira como esta carta chegará às mãos de Temer e Pezão. A petição já tem milhares de assinaturas.